ouço, de vez em quando, alguma coisa gritar em mim: "marcelo, você está fazendo tudo errado!". abro os olhos então, com um pouco de força, nem que de leve seja, pois as pálpebras estão que não se podem segurar sozinhas. estão à beira de um ataque: os nevos enrijecidos, o cabelo caído...na pele, equimoses explodem aparentemente sem razão. há pouco enlutei-me de certas mágoas. elas fizeram em mim um casulo cujo formato não posso distinguir. lúcido, ainda investigo as unhas (dos pés e das mãos), estão feitas como eu: na vida, um todo se aglomera. aos poucos refaço o que deixei de fazer e, fazendo o que a obrigação me impõe, deixo de ser. e vai-se, então, o marcelo poliglota, o marcelo risonho, o marcelo poeta, o marcelo músico, o marcelo profeta! sobra este que não fala, pequeno senhorio cuja facúndia não lhe mais é dada: porque foi triste o abandono em desprezo sofrido...que se foi por menos, muito mais querido, esta desalegria que tenho em admitir que não é mais possível ser o mesmo...
ouço, de vez em quando, alguma coisa gritar em mim: "marcelo, você está fazendo tudo errado!". por um minto sou todo concordato, e fecho os olhos, apreensivo...